Sobre o Processo de Certificação da FPF…

Como todos sabemos, o processo de certificação já existia no Futebol 11 antes de passar a ser obrigatório na nossa querida modalidade, Futsal.

Porém, parece que quem está lá em cima se esquece da nossa realidade não tem nada haver com o Futebol de 11. Na maioria dos clubes (arriscaria dizer 90% ou mais) os dirigentes fazem as coisas por gosto, não são assalariados, e mesmo o corpo técnico eu arrisco pensar que nem 30% é assalariado. Quando digo “assalariado” não considero receber 50 EUR ou 100 EUR para cobrir as despesas de deslocação, considero que um técnico é assalariado ao receber uma verba de 250 EUR para cima…

No Futebol de 11 os técnicos frequentemente recebem isso a treinar Sub-11, ou até mais…

A ideia (da certificação) é engraçada e faz sentido tudo o que é proposto, mas não tem aplicabilidade.

Isto era o que eu dizia no curso que leccionei: 99% das ideias do Prof. Jorge Braz e restante staff são boas, mas ou são deturpadas à boa maneira portuguesa ou não têm aplicabilidade, só 1% tem sucesso (atenção tenho enorme consideração pelo Prof. Jorge Braz).

Vamos por partes:

Na parte técnico-tática a certificação não veio trazer nada de novo, era algo que já fazia há mais de 10 anos, quando representava o Amanhã da Criança como treinador/coordenador. A única coisa que não tinha em formato digital era o modelo de jogo. Isto é uma boa exigência, porém um bom treinador, na minha opinião devia preparar os treinos à mão ou PC e depois organizar isso, bem como ter estatisticas dos jogos. Isso é leccionado nos cursos…

Na parte do papel do coordenador, têm-se feito formações para explicar a sua função e como a executar, mas penso que é a grande lacuna que temos neste momento. Um bom coordenador não deve treinar nenhum escalão, andar a ver os treinos de todos, trocar ideias com os treinadores e fazer um papel de coaching…

Quanto à outra burocracia que os clubes devem ter, de pessoas habilitadas, parcerias com clínicas, fisioterapeutas ou massagistas, acompanhamento escolar etc, digam me quantos clubes têm isso na realidade?

“Inspeções” agendadas, claro que para esse dia há tudo e mais alguma coisa, e depois nos outros 364 dias? Se aparecessem de surpresa aí é que dava “barrete”, mas como a certificação é “para inglês ver”, que somos pioneiros a nível europeu com tal projecto, etc. (conteúdos 0)

Mas o mais importante, e que considero que está a estragar a modalidade é a obrigatoriedade de ter escalões de formação se querem estar no patamar X, caso contrário não sobem de divisão… Nós queremos formar em qualidade ou quantidade?

Eu enquanto estava no Amanhã da Criança, muitos anos só tínhamos Sub-17 e Sub-19, mas proporcionávamos condições excelentes para esses atletas…

Dificuldades no recrutamento de jogadores, ainda cheguei a propôr uma parceria ao meu amigo Eng. Bartolo (presidente da AM Granja), que pagávamos uma verba anual, e os iniciados de lá vinham para o Amanhã da Criança. Infelizmente não avançou…

Hoje em dia a maioria dos clubes têm 7 escalões, mas depois não há directores; não há treinadores encartados suficientes; o fisioterapeuta não chega para as encomendas; transportes dependente da disponibilidade e ajuda dos pais dos atletas; escalões só com 8 atletas porque há falta de miúdos; e muito mais que podia continuar a enumerar…

É isto que queremos para a nossa modalidade?

Eu primazio qualidade à quantidade.

Infelizmente quem está no topo, está a ver coisas que eu não vejo… Só querem elogiar o que está bem e o que o futsal cresceu, o negativo não deve ser falado, assobia-se para lado…

Muito mal vai a nossa formação, basta ir ao terreno ver jogos, se me dizem que há emoção em jogos 7-5, 9-7 etc. há, claramente… Mas e o sumo (conteúdo) onde está? Depois quando esses miúdos chegam a séniores o que acontece?

Acho que esta situação é extremamente preocupante, de a FPF dar primazia à quantidade em vez da qualidade…

À medida que os anos passam parece que cada vez percebo menos o caminho que querem seguir os nossos líderes, e que muitas vezes percebem tanto de futsal como eu de basebol…

Saudações desportivas,

André Martins

2 Comments

  1. Hugo Oliveira

    Os meus parabéns, pois partilho por completo tudo que aqui foi escrito, e eu próprio já verbalizei o mesmo, mas deixe acrescentar mais um ponto a sua lista…
    Os nossos campeonatos tem de ser bem revisto, não tem lógica fazer uma primeira fase a uma volta, não tem lógica um campeonato no taltal acabar em maio e começar em outubro e o que fazemos com os miúdos o resto do tempo, como motivados.
    E para quando um campeonato sub 23?

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  2. José António

    Foi meu tutor de estágio do curso nível 1 consigo muito aprendi vou seguindo o seu percurso e muito gosto de ler os seus artigos.
    Quanto à sua publicação concordo plenamente consigo e OBRIGADO por meter o dedo na grande ferida do futsal seremos sempre o parente pobre do futebol 11!
    Diria mais sou treinador de Juniores A vou para o segundo ano com os meus miúdos e campeonato a 1 volta que termina em dezembro? 8 jogos!
    Não trás nada de benefícios para eles muito pelo contrário…
    Tenho os miúdos sem ter competições oficiais desde de Maio e só vão começar a competir a 21 de outubro faz sentido? Não!
    Agora tenho um grupo de miúdos fantásticos que mesmo tristes por não poderem competir oficialmente têm uma paixão enorme em aprender sempre mais e vão fintando essa tristeza.
    Tivemos os 3 anos de junior para quê? Para nada a história de terem mais um ano para preparar para os seniores sempre disse que era uma treta porque não é assim que se prepara os miúdos para lá chegar e o que é certo acabaram com isso, só deu razão ao que dizia e que foram sempre contra com quem eu falava pois diziam que isso é que era o correcto.
    Na pandemia porque interessava já sabemos como funciona o sistema fizeram o campeonato de Sub-20 ou sub23, já não me recordo muito bem, agora pergunto e porque não acabar de vez com as equipas B que em nada trazem benefícios e criarem o campeonato de sub23!? Aí sim na minha opinião são 5 anos para um jogador já com rotinas, mais maturidade e com o trabalho conjunto da equipa principal fazer a transição com pés e cabeça para o seniores. E não esquecendo que na formação também muita coisa têm que mudar… As pessoas pensam que só ter craques é que funciona, mas esquecem que sem ovos também se faz omeletes e falo por experiência própria ao longo destes 13 anos que já levo disto.
    Quanto a certificação concordo consigo somos cada vez menos em recursos humanos , concordo que não se deve acumular funções porém como disse anteriormente sem recursos humanos o acumulado de funções vai ter que acontecer infelizmente e como coordenador prefiro ir com os pés bem assentes na terra e ir fazendo o caminho do clube no processo de certificação passo a passo e o tempo mostrou isso pois com calma em 3 anos fomos 2 vezes centro básico e só agora chegamos a 1 estrela o crescimento faz-se devagar não com a pressa de ser bonito se dizer que se tem 3 estrelas por exemplo, porque todos sabemos que muita coisa que lá está pedida raro é o clube que tem mesmo essa realidade!
    Já alguns anos que falo destas e outras questões, mas como para muitos não interessa é mais fácil assobiar para o lado e deixar andar o barco …
    A si mister André espero continuar a ler muitos mais publicações suas e beber da sua experiência/aprendizagem
    Forte abraço

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