Cursos de Formação de Treinadores: Melhores ou Piores?

Um tema que considero muito pertinente, e que de certeza vai levantar polémica…

Quando iniciei a carreira como treinador de futsal em 2001, ainda sem formação, a oferta formativa era muito escassa, não existia nenhuma informação disponibilizada na internet e não haviam grandes colóquios, logo as partilhas de ideias eram escassas e a circulação da informação formativa era muito pouca…

Acabei por tirar o Grau I em 2003. Ou melhor, por ser obrigado a concluir o Grau I, caso contrário no ano seguinte a AF Porto não me deixaria treinar! Ora bem, passados 19 anos, continuamos a ter pessoas sem certificação a desempenharem a função de treinador (na AF Porto e em todas as zonas do país), porque supostamente a “oferta” de treinadores formados é inferior à “procura”.

Digam-me quantos cursos aconteceram nestes 19 anos? Quantos treinadores foram formados desde então?

O problema, na minha opinião, não estará tanto na formação, mas sim na retenção dos treinadores na modalidade. Isto acontece por diversas razões, dado que, muitos dos treinadores com quem tirei o Grau I, abandonaram a modalidade pela desilusão com quem a gere, com direcções de clubes e o prometido crescimento que não aconteceu…

Relativamente aos cursos de certificação, como éramos poucos na AF Porto e fui fazer a minha certificação Grau II a Viseu, fazendo um investimento enorme e inúmeros kms. Deu para haver partilha de conhecimento com o Gabriel Silva, um prelector fantástico. (o outro prelector não me vou pronunciar, pois “partilha” não deve conhecer o significado…)

Já o Grau III, com o regime de internato foi bastante enriquecedor e muito interessante. Já lá vão 14 anos desde que terminei o Grau III, em 2008. Esta foi a minha experiência como formando. Vejamos agora como funciona hoje em dia a formação e acreditação de treinadores de futsal:

A teoria é muito interessante, com conteúdos cada vez mais uniformes, para que possa haver uma linguagem univeral entre treinadores. A componente prática, também ela vem trazer partilha de conhecimentos dentro da quadra. De seguida, um ano de estágio para colocar em prática os conhecimentos adquiridos. Ora, é neste ponto, que acho que na prática esse ano de estágio não resulta em nada…

O treinador estagiário tem que arranjar um tutor, que muitas vezes é um conhecido, ou um amigo de um amigo.

A verba que o tutor recebe, varia de associação para associação, podendo ir de 50 a 80€ passando o respectivo recibo verde ou ato isolado.

Supostamente, um bom tutor vai assistir a unidades de treino (or partes de UTs) dirigidas pelo treinador estagiário, eventualmente até jogos, e realizam frequentes troca de ideias. Bem como o formando supostamente deverá observar o que faz o seu tutor, como forma de aprendizagem.

Ora, indo ver um treino e um jogo lá se vai a verba que recebemos como tutores, para ajudar a formar o estagiário.

O que fazem a maioria dos tutores? Nada, assinam a papelada no final de época e emitem o recibo verde…

Na época transacta, houve uma alteração nos regulamentos. Agora para ser tutor, tinhamos de efectuar uma formação, que prontamente a fiz (embora bastou-me assistir para obter a certificação para ser tutor de Grau I e II, não havendo lugar a qualquer tipo de avaliação)!

A dita formação foi realizada juntamente com os treinadores-tutores de Futebol de 11, ou seja foi praticamente uma noite inteira a ouvir falar de Futebol de 11 e nada de Futsal. Quando a FPF perceber que somos uma modalidade muito diferente, estas formações vão resultar melhor… (no segundo dia da formação já tivemos um prelector ligado à modalidade e aí sim, já houve lugar a uma experiência enriquecedora)

Ridículo, simplesmente ridículo. É a palavra que me ocorre, principalmente quando apregoamos que estamos a formar cada vez mais e melhor…

De agora em diante recuso-me a ser tutor, pois não me revejo no modelo. Estarei sempre disponível para trocar ideias e ajudar alguém na sua iniciação ao treino do futsal, mas tutoria não por não estar de acordo com a forma como o processo está estabelecido.

A última vez que fui tutor, os estagiários eram meus adjuntos, aí sim podemos ter uma ligação, troca de ideias, avaliações completas e com feedback imediato, ao nível de correções e ajustes.

Mas no formato que os estágios decorrem hoje em dia, infelizmente não vejo os estagiários a ganharem competências como deviam. O que transmito a muitos treinadores que estão a iniciar as suas carreiras é que o melhor estágio que eles podem fazer, é ir como adjunto de um bom treinador, e absorver ao máximo de informação que consigam. Foi o que eu fiz, quando estive uma época na equipa técnica do Paulo Tavares, foi o ano em que aprendi mais…

Agora aqui também temos o problema de muitos dos estagiários já se acharem treinadores, e quando vamos ver os trabalhos de curso nem sabem o que é o modelo de jogo, sendo transversal a pessoas com menor formação, seja a licenciados em educação física com especialização em futsal.

Mas, como dizem os experts: ganhamos dois Campeonatos da Europa, um Campeonato do Mundo, temos clubes a vencer a UEFA Futsal Champions League, portanto está tudo bem, e por cá trabalha-se muito bem… Devo ser eu que estou equivocado, e sou um dos velhos do Restelo que só sabe criticar, tenho a mesma opinião há varios anos, e por isso procuro trocar ideias essencialmente com pessoas de outros países, e fazer estágios em Espanha, que para mim ainda continuam a ser a referência de como trabalhar bem no futsal…

Adnré Martins

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