Competências Vs Qualificações dos Treinadores de Futsal

Um tema já bastante debatido, onde não existe consenso sobre qual o caminho correcto, e a impunidade continua a existir em diversos campeonatos, mas vamos por partes.

Supostamente para se ser treinador de uma equipa de futsal, qualquer que seja o escalão temos de ter um curso de treinador, e consoante a categoria varia da exigência de nível I a nível III.

Quando há 18 anos atrás fui tirar o Grau I na Associação de Futebol do Porto (e paguei 200€ por ele), fui porque na altura o clube que treinava, a Juventus Triana FC, em escalão de juvenis (sub-17), recebeu uma missiva, de que os treinadores que não fossem tirar o dito cujo, na época seguinte não poderiam exercer funções. Bem, passados 18 anos existem treinadores sem curso a exercer nesta associação e noutras, com o compromisso de honra de ir tirar, ou simplesmente até ao escalão de iniciados não é necessário, como na Associação de Futebol de Braga.

Se me perguntarem, se o curso de Grau I me deu competências na altura para ser melhor treinador, a minha resposta será não, mas deu-me uma coisa, chamada qualificação de treinador de Grau I.

O que é uma vergonha para mim, é que em 2021 ainda termos à descarada na Liga Placard treinadores sem o dito curso, que terá de ser o nível 3 a exercer a função de treinador principal. Algúem está lá, e dá o nível, e essa pessoa está inscrita como director, como treinador adjunto, entre outras. Mas todos sabemos quem é verdadeiramente o treinador, é visivel nos jogos que são televisionados quem orienta a equipa, mesmo não estando de pé por vezes, e muitas vezes os árbitros já nem ligam a isso. Na pausa técnica quem dá as instruções, não é o suposto treinador, mas sim a pessoa sem qualificações para tal.

Existem dezenas de treinadores, se não passar já a centena com o Nível III, fora os iluminados com o nível IV, que nunca existiu, mas por terem feito muito em prol da modalidade, o obtiveram e que trouxe uma diferença enorme relativamente ao nosso país vizinho.

As pessoas que obtiveram os seus cursos por mérito próprio, e não equivalências, e pagaram dos seus bolsos, essas formações como podem corroborar com esta situação?

Como há treinadores que estão disponíveis a oferecer o seu canudo para outros exercerem?

Não percebo, somos um país muito atrasado, e exemplifico: Há 11 anos atrás tive a hipotese de ir fazer dupla técnica para Espanha para um clube da LNFS, na altura o Prof. Jorge Braz falou com o Venâncio por causa do nosso nível III lá nao ser equiparado ao deles, e como tal, a minha inscrição não foi aceite. O Prof. Jorge Braz falou ainda que eu estaria disponivel para assumir o compromisso de honra de tirar o Grau III Espanhol no final, de época mas pode fazer dupla técnica na altura com Diego Rios Gayoso, ao que o Venâncio respondeu “isto não é Portugal, aqui tiras o curso podes exercer, não tens o curso não podes exercer”. Na altura perdi a oportunidade de poder treinar na melhor liga do mundo, em função de em Portugal haver 4 níveis de curso, sendo que o Grau IV nunca foi leccionado. Para verem a diferença entre Espanha e Portugal, somos uns meninos à beira deles.

Porém, há uma coisa que concordo, e já mencionei logo no início deste artigo: o facto de ter tirado o Grau I, não me deu mais competências, deu-me uma qualificação. Não tenho qualquer dúvida que existem muitos treinadores por aí espalhados, sem qualificações mas extremamente competentes, temos no Futebol de 11 o caso do Ruben Amorim por exemplo, e no Fundão Futsal o Couto, que ano após ano tem feito um excelente trabalho.

Agora, se sairmos do mundo do desporto e fizermos aqui duas analogias a ver se isto acontecia:

  1. Eu, como católico praticante, normalmente vou à missa aos domingos já há quase 30 anos. Bem, acho que já seria capaz de rezar uma missa, mas porque não posso? Não tenho a qualificação (formação) para isso.
  2. Outro exemplo, um enfermeiro que assiste um ortopedista há imensos anos a fazer operações simples ao menisco, será que algum de nós deixava ser o enfermeiro a operar, mesmo com o médico ao lado? Acho que ninguém deixava, dado que não tem a formação, apesar de até poder ter a competência necessária.

Aqui neste tema muito sensivel, o que temos de fazer é chegar a uma solução: ou esquecem-se os níveis e qualquer um pode ser treinador, ou têm que existir penalizações a sério, e não tapar o sol com a peneira, já chega de brincar.

Imagino que seja dificil para quem acabe a carreira de futsalista, sendo internacional ou não, ter que esperar 6 anos ou mais para poder exercer ao mais alto nível, mesmo tendo as competências. Acredito, e dou aqui o exemplo sem qualquer problema, que já tive uma formação/troca de ideias com o João Matos, internacional A e jogador do Sporting CP, que possui um conhecimento do jogo brutal e já ganhou quase tudo o havia para ganhar. Tem competências de topo, se calhar melhor que as minhas, e tenho o Grau III desde 2008… É justo que acabando a carreira não possa logo começar no topo se tem tais competências?

Mesmo pelo meu texto, dá para ver que eu acho que seja injusto que algumas pessoas demorem anos a poder mostrar o seu valor por não terem um título, mas se criaram leis que ditam que assim seja, devia ser cumprido não acham?

Ou mudem as leis…
Aqui fica para reflectir…

André Martins

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *